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Vícios da interioridade segundo Teofrasto

Reflexões sobre comportamentos humanos descritos na Grécia Antiga e ainda presentes na atualidade

Por: Redação On-line Fonte: Artigo de Opinião - Dr. Wilson A. Paiva
03/03/2026 às 14h29 Atualizada em 04/03/2026 às 11h44
Vícios da interioridade segundo Teofrasto
Freepik

Artigo escrito por Dr. Wilson A. Paiva

Caros leitores,

Iniciei aqui uma série de textos curtos sobre a filosofia ou sobre o ato de filosofar. Após falar (no dia 03/02/2026) sobre a questão do direito ao precioso silêncio (sem o qual é difícil ler, pensar e refletir), fui à Grécia Antiga para achar os “causos” interessantes que provocam uma boa reflexão. Muito bem, falei do anel de Giges (pronuncia-se Guíges) no texto do dia 10/02, depois veio nosso conhecido filósofo Teofrasto, cujo texto inicial foi no dia 17/02, quando comecei a falar dos vícios sociais que ele apontava como problemáticos em sua época. Daí a atualidade desse pensador, uma vez que os tipos de pessoa que ele retrata podem ser encontrados nos dias de hoje.

Dividi o assunto em 3 blocos e, na semana passada, comentei sobre os vícios do relacionamento, que foi o bloco 1. Hoje apresento-lhes o bloco 2, sobre os vícios da interioridade.

Vícios da Interioridade

Seus portadores são os seguintes: o impudente, o descarado, o disparatado, o estúpido, o autoconvencido, o supersticioso, o eterno descontente, o desconfiado, o desmazelado e o cobarde (ou covarde, como falamos no Brasil).

Comecemos, pois, com o impudente — ὁ ἀναισχυντία / ὁ ἀναισχύντως ἔχων (ho anaischyntos) — cujos traços mais característicos são o de tolerar o erro, o de não sentir vergonha de nada e o de ter a consciência adormecida. O impudente age como se as normas sociais fossem opcionais e até desnecessárias, fugindo de seus deveres. Como diz Teofrasto, é capaz de matar a mãe de fome e até cometer roubo. É daqueles que, pensando nos dias de hoje, saqueia a mercadoria de caminhão tombado sem sentir-se culpado.

Quer mais exemplos? O sujeito interrompe os outros sem cerimônia, fala alto demais, e ainda falando o que não deve, vai sem ser convidado, toma liberdade exagerada e não respeita a intimidade das pessoas. Quem quer amizade com uma pessoa dessa?

E o que dizer do descarado — ὁ ἀναιδής (ho anaidēs) —, que é o próximo da lista? Esse é um total sem-vergonha (no sentido moral e não no sexual), pois é desprovido de pudor social: não tem limites, não se constrange, não se regula e não sente vergonha mesmo quando todos ao redor ficam embaraçados por ele.

Pode confessar, meu caro leitor: você também conhece alguém assim... conhece alguém que, como diz Teofrasto, é capaz de pedir dinheiro emprestado a alguém no qual já deu calote. Conhece aquele que fura fila descaradamente, que abre a geladeira sem pedir, quem pede coisas emprestadas e não devolve (ah, os livros! Já perdi a conta dos que se foram); que pede para usar seu computador ou celular e fica horas com o aparelho etc. etc. etc... — a lista pode ser longa e cansativa, como é esse tipo.

Avante! O terceiro, o disparatado — ὁ ἀλόγιστος (ho alogistos) — é sempre espalhafatoso e debochado, beirando o ridículo. É aquele sujeito cuja conduta é marcada por inconveniências, tolices e comportamentos sem noção, a ponto de provocar riso ou constrangimento. Ele não faz mal por maldade, mas por falta de senso, de adequação e de medida.

Por exemplo, aparece com roupas impróprias à ocasião; faz brincadeiras de mal gosto; conta piadas e tece comentários inadequados e até ofensivos; envia áudio de 20 minutos para falar de assunto que poderia ser resumido em 1 ou 2; arrota alto ou peida em público só para chamar a atenção; enfim, quase sempre aparece com ideias absurdas, planos inviáveis, projetos confusos e falas sem pé nem cabeça — e espera ser levado a sério, enquanto todos o consideram um palhaço.

Pior que esse, só o estúpido — ὁ ἀμαθής (ho amathēs) —, que é lento, não “pega” as coisas e é incapaz de compreender o óbvio nas situações humanas. Para ser mais claro, é aquela pessoa com a cabeça meio desligada, que não percebe o óbvio, não entende as situações e vive sem noção do que está acontecendo.

A ‘estupidez’ dele aparece no dia a dia: é uma mistura de lentidão, ingenuidade fora de hora e total incapacidade de sacar as consequências mais básicas. É principalmente graças a esse tipo que os malandros se mantêm: fornece dados sigilosos a golpistas, entra em link suspeito, assina contrato sem ler, conta segredo em público, cai em “pirâmide” pela segunda ou terceira vez, toma decisões impulsivas e inconsequentes... e a lista é longa! Vou parar por aqui, se não eu mesmo descubro que sou estúpido, por já ter praticado uma dessas ações.

Temos também o autoconvencido — ὁ δοξόπλης ou ὁ ὑπόνοιαν ἔχων (o doxoplis ou o yponoian echon) —, é um coitado, pois interpreta tudo de modo a convencer-se de que está certo. Resiste a fatos, cria narrativas e se alimenta da ilusão, distorcendo a realidade. Nas conversas, sempre diz: “Eu sei do que estou falando!” (mas não sabe).

A diferença do parlapatão é que o autoconvencido vive em sua própria bolha, enganando-se a si mesmo, enquanto o parlapatão, ou ainda o gabarola, tenta enganar os outros. Mas, quando vejo na internet pessoas que acham que entendem de um tema porque “tem feeling”, ou porque leram apenas um livrinho sobre o assunto, ou assistiu a alguns vídeos ou seguiu a um guru, fico em dúvida sobre qual perfil vem mais a calhar.

Seguimos! É a vez do supersticioso — ὁ δεισιδαίμων (ho deisidaimōn) —, o qual não só teme o sobrenatural, como exagera a manifestação de suas crendices. Conhece aquele que não passa por baixo de uma escada, ou que se treme todo se um gato preto passa em sua frente? É desses que estamos falando.

Sonhou? Credo em cruz! Inquieta-se e fica aflito achando que vai acontecer tal qual sonhou. Acredita em horóscopo, carrega amuletos, não deixa chinela virada e tem medo de tudo: de atrair olho ruim, azar, carma negativo, o número 13 (e não é que esse trouxe mesmo azar?) e por aí vai.

Todos nós temos amigos e conhecidos que se parecem com o eterno descontente — ὁ δυσκόλος (ho dyskolos) —, pois é aquele que não se contenta com nada, um ingrato e sempre olha as coisas pelo lado negativo. O termo usado por Teofrasto quer dizer literalmente “o difícil”, “o ranzinza”, “o intratável”, alguém de trato amargo mesmo quando as coisas vão bem.

Mesmo que você tente ajudar, agradar, a cortesia comum lhe parece artificial; por isso vive isolado, na defensiva, como se o mundo estivesse sempre lhe devendo algo.

Na sequência vem o desconfiado — ὁ ἄπιστος (ho apistos) — cujo caráter é também bem conhecido: suspeita de todo mundo e não confia em ninguém. Isso leva o sujeito a ficar meio antissocial, ao viver um labirinto de suspeitas, evitando confiar nas pessoas.

Hoje em dia não é fácil mesmo confiar nos outros, mas imaginar que sempre haverá uma “intenção” oculta por trás de tudo é meio paranoico. Como vivemos em um mundo cheio de golpes, propagandas enganosas e “presentes” que vêm com letras miúdas, desconfiar moderadamente e perguntar “qual é o interesse?” é apenas prudência; mas se isso vira uma regra absoluta, aí já é paranoia.

Outro tipo que, segundo Teofrasto, prejudica a si mesmo é o desmazelado — ὁ ῥᾳθυμος (ho rhathymos). Outros tantos escreveram sobre isso, como Sófocles (em Filoctetes), revelando que o problema do “Cascão” (Turma da Mônica) é bem antigo. Mas sua ojeriza não é apenas contra o banho, mas com tudo que diz respeito à higiene, organização, elegância e bons modos. Hoje em dia isso não é tão grave, mas no contexto da Grécia Antiga isso era gravíssimo!!!

O desmazelado não corta (e nem limpa) as unhas, veste-se mal, não cuida dos cabelos, arrota, peida, cospe e joga lixo em qualquer lugar. Isso implica problema de caráter porque, geralmente, deixa as coisas para a última hora, e quando faz, faz de forma rápida e mal; distrai-se facilmente e não cuida de suas coisas; faz promessa e não cumpre; deixa sumir tudo; e não organiza nada. Sua vida exterior é a extensão de sua psique.

E, para finalizar este bloco, vem o cobarde (a tradução que tenho é do português de Portugal. No Brasil é covarde) — ὁ δειλός (ho deilos) —, que foi comentado também por Heródoto, Aristóteles, entre outros, como algo odioso. Pois bem, hoje a covardia é algo comum, mas ter medo excessivo, doentio, já é demais!

Concordo com Teofrasto, pois viver preso a um mundo imaginário de perigos, onde cada sombra esconde um desastre potencial, é doentio. Nem precisa pensar em contexto de guerra, mas no dia a dia: o covarde tem um comportamento infantilizado e evita assumir suas obrigações sociais. É difícil manter a amizade com um tipo desse, não é? Você chama para sair e o sujeito responde: “Mano… e se a gente for assaltado no caminho? E se chover? E se eu tropeçar na calçada e virar meme? Praia? E se uma arraia me ferroar?” Deixe o cara em casa e vá sozinho!

Hoje em dia a covardia faz com que as pessoas fiquem em casa, esperando por ajuda alheia, por bolsas e vales cuja dependência lhes atenua a vontade de sair, lutar e vencer na vida. Estamos virando uma sociedade covarde e nem percebemos.

A esperança de uma sociedade melhor está em você, jovem, que recusa essa apatia social e levanta cedo para estudar, aprender, pensar e trabalhar o máximo que puder.

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Dr. Wilson A. Paiva  
Doutor em Filosofia da Educação (USP)   
Escritor e Professor da UFG, Membro da Atleca   

 

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DOURIVAN PEREIRA DE ABREUHá 2 semanas GoiâniaMais um artigo instigante e de fácil leitura. Disseca tão bem os caráteres que já nos vemos diante de um espelho.
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