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Os vícios de relacionamento segundo Teofrasto

Dez comportamentos descritos na Grécia Antiga que continuam afetando a convivência social nos dias atuais

Por: Redação On-line Fonte: Artigo de Opinião - Dr. Wilson A. Paiva
24/02/2026 às 09h25
Os vícios de relacionamento segundo Teofrasto
Foto: Divulgação

Rememorando

Na semana passada apresentei-lhes esse interessante filósofo da Grécia Antiga, o qual se dedicou a observar o comportamento das pessoas e a classificar os tipos, ou melhor, os caráteres que delineiam a personalidade. Comentei que todos esses “vícios” de personalidade não eram apenas comuns em sua época, como também nos dias de hoje. Como o assunto é longo, resolvi dividi-lo em blocos (por influência da temática carnavalesca).

Muito bem, hoje vamos falar do Bloco 1, que eu chamei de Vícios do relacionamento. O que são? Por que esse nome? Vamos lá.

Denominei assim por serem vícios que dificultam as relações humanas e, evidentemente, desarmonizam a vida social como um todo, tendo como eixo comum a falsidade e a inconveniência social. São eles: o dissimulado, o bajulador, o tagarela, o parolo, o complacente, o parlapatão, o inoportuno, o intrometido, o gabarola e o arrogante.

Ficou curioso? Ora, admita: todo jovem (todo jovem, nada, todo o mundo) é curioso! Está disposto a analisar todos eles? Então vamos lá.

Comecemos com o dissimulado — ὁ εἰρωνικός (ho eirōnikós) — que, segundo Teofrasto, gosta de elogiar a pessoa em sua presença, mas fala mal pelas costas. Sempre esconde o que está fazendo, tramando ou maquinando e nunca é verdadeiro, pois dissimula sua opinião ao sabor de quem ouve, apenas para agradar e manipular por meio do discurso ou das aparências. Ou seja, alguém em quem não se pode confiar de jeito nenhum. O sábio conselho do filósofo é: “Com gente retorcida e falsa como esta, é preciso ter mais cuidado do que com as víboras” (Teofrasto, 2014, p. 52).

Em seguida vem o bajulador — ὁ κολακευτής (ho kolakeutēs) — que não é muito diferente do dissimulado, pois é igualmente degradante, mas, segundo Teofrasto, elogia exageradamente para ganhar favores. Isto é, um verdadeiro puxa-saco. Sua ferramenta principal não é o fingimento, mas a adulação explícita, para dizer o que o outro quer ouvir e obter lucro com isso. Se você tem um amigo que nunca discorda, mas sempre elogia, desconfie.

E o tagarela — ὁ ἀδολέσχης (ho adoleschēs)? Sua fala é caótica, sem nexo e sem proveito. Fala sem pensar, sem medir palavras. Embora mais cômico que perigoso, é incômodo e cansativo. Conta tudo em detalhes desnecessários e não percebe o desinteresse do ouvinte. Como diz Teofrasto, é preciso fugir a sete pés se se quiser evitar uma seca (2014, p. 58).

Na sequência vem o parolo — ὁ ληκυθιοπώλης / ὁ ἀλαζών (ho alazōn) — o fanfarrão vaidoso que desconhece as conveniências sociais. Não é mal-intencionado, mas desajeitado e fora de sintonia com o ambiente. Sua falha não é moral, mas social: falta-lhe refinamento e senso de adequação.

Em quinto lugar está o complacente — ὁ ἰδιώτης ou ὁ δεξιός (ho dexiotēs) — que concorda com tudo por fraqueza de caráter e necessidade de aceitação. Diferente do bajulador, não age por interesse, mas por passividade. Em ambientes coletivos, evita decisões difíceis e acaba contribuindo para a manutenção de problemas.

O parlapatão — ὁ λάλος (ho lalos) — é o falastrão narcisista que sabe tudo e não sabe ouvir. Distorce fatos, inventa histórias e usa argumentos apenas para vencer debates, mesmo que recorra a sofismas. No século XIX, Arthur Schopenhauer escreveu A Arte de Ter Razão (Eristik), listando 38 estratagemas erísticos, justamente para desmascarar esse tipo de comportamento.

Já o inoportuno — ὁ ἀκαίρως πράττων / ὁ ἀκαίριος (ho akairos) — não tem senso de tempo social. Faz a coisa certa na hora errada ou a errada em qualquer hora. Não é maldoso, mas inconveniente. Um exemplo citado por Teofrasto: fazer serenata à namorada no dia em que ela está com febre (2014, p. 78).

O intrometido — ὁ περίεργος (ho periergos) — mete-se na vida alheia sob pretexto de ajudar. Quer vigiar, corrigir, controlar e dar conselhos não solicitados, ultrapassando limites sociais. É o vizinho xereta ou o familiar invasivo que tenta decidir a vida dos outros.

O gabarola — ὁ ἀλαζών (ho alazōn) — vive de exagerar qualidades e feitos para impressionar. Nas redes sociais, constrói uma imagem inflada, buscando admiração constante e reconhecimento público.

Por fim, o arrogante — ὁ ὑβριστής (ho hybristēs) — sente-se superior e age com desprezo. Não cumprimenta quem considera inferior, exige tratamento especial e só dialoga com quem lhe convém socialmente.

Conhece alguém assim?

Na próxima semana tem mais. Aguarde!
                                                  

 

Dr. Wilson A. Paiva  
Doutor em Filosofia da Educação (USP)  
Escritor e Professor da UFG, Membro da Atleca

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DourivanHá 3 semanas Goiânia GOMais um artigo primoroso. Um verdadeiro raio x da nossa sociedade escrava do "socialmente correto".
Valmira PaivaHá 3 semanas Trindade GóiasGostei do artigo, muito bom.
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