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Piscinas, cloro e o risco invisível: duas tragédias reacendem alerta

Diretora da Sociedade Brasileira de Toxicologia explica possíveis causas e orienta como agir diante de suspeitas

Por: Redação On-line Fonte: Flávia Neri
20/02/2026 às 13h30 Atualizada em 20/02/2026 às 15h50
Piscinas, cloro e o risco invisível: duas tragédias reacendem alerta
Gerado por IA

Duas mortes, sete anos de intervalo e um mesmo elemento químico no centro das investigações: o cloro. Os casos ocorridos na HydroCenter Academia, em Campinas (SP), e na C4 Gym, na capital paulista, revelam um padrão preocupante envolvendo falhas no manejo de produtos químicos utilizados no tratamento de piscinas.

Enquanto Diretora da Sociedade Brasileira de Toxicologia, alerto que a liberação acidental de gases como o cloro (Cl₂) ou as cloraminas pode provocar lesões pulmonares graves em questão de minutos e, em concentrações elevadas, levar à morte.

O caso de 2019: Samuel Squarisi

Há sete anos, o aluno da HydroCenter Academia, Samuel Squarisi, 38 anos, morreu após sofrer intoxicação respiratória durante uma aula de natação. Ele foi internado no Hospital de Clínicas da Unicamp, mas não resistiu.

Outras duas pessoas ficaram internadas em estado grave com lesões pulmonares, e pelo menos seis alunos foram expostos ao gás liberado na área da piscina. Parte deles recebeu atendimento médico e foi liberada.

Samuel era Diretor Executivo do Grupo Conduzir, organização voltada ao desenvolvimento comportamental de crianças e adolescentes. Em nota oficial, o grupo afirmou que ele foi vítima de “intoxicação respiratória causada por cloro” e cobrou esclarecimentos sobre o ocorrido.

A academia informou, à época, que apenas algumas pessoas foram expostas a um produto químico derivado de cloro que estava sendo preparado para uso na piscina ao final das aulas. Declarou ainda ter contratado empresa especializada para apurar as causas do acidente. Não houve divulgação pública de conclusão técnica definitiva amplamente repercutida.

O caso de 2026: Juliana Faustino Bassetto

No início de fevereiro deste ano, a professora Juliana Faustino Bassetto, 27 anos, morreu após exposição a gás tóxico na piscina da C4 Gym, localizada no Parque São Lucas, zona leste de São Paulo (SP).

O caso é investigado pelo 42º Distrito Policial. Segundo o delegado responsável, há forte suspeita de que uma mistura incorreta de produtos químicos tenha provocado a liberação de gases tóxicos no ambiente.

O marido da vítima e um adolescente de 14 anos foram internados em estado grave com comprometimento pulmonar. Outras duas pessoas receberam atendimento e foram liberadas.

A Subprefeitura de Vila Prudente interditou preventivamente o estabelecimento após constatar irregularidades administrativas e estruturais. A Polícia Civil apreendeu amostras da água e dos produtos utilizados para análise pericial. Até o momento, o laudo conclusivo não foi divulgado.

O que pode ter acontecido? A ciência por trás da intoxicação

Embora os laudos oficiais ainda estejam em andamento, o padrão clínico descrito em ambos os episódios é compatível com intoxicação por:

• Cloro gasoso (Cl₂)
• Cloraminas (NH₂Cl e compostos relacionados)

Esses gases podem ser liberados quando ocorre mistura inadequada de produtos à base de hipoclorito com outras substâncias químicas, especialmente compostos contendo amônia ou ácidos.

Mecanismo de lesão

O cloro, ao entrar em contato com a umidade das vias aéreas, reage formando ácido clorídrico (HCl) e espécies reativas de oxigênio. O resultado é:

• Queimadura química das vias respiratórias
• Inflamação intensa
• Formação de edema pulmonar não cardiogênico
• Destruição da membrana alveolar

As cloraminas, por serem menos solúveis, conseguem atingir regiões mais profundas do pulmão, provocando pneumonite química.

Sintomas típicos

A gravidade depende da concentração e do tempo de exposição.

Quadros leves a moderados:

• Ardor nos olhos
• Tosse intensa
• Dor no peito
• Falta de ar

Quadros graves:

• Estridor (inchaço da laringe)
• Hipóxia
• Edema pulmonar agudo (que pode surgir até 24h depois)
• Insuficiência respiratória

Os relatos médicos, nos dois casos, mencionam lesões pulmonares graves, quadro compatível com edema pulmonar químico.

Protocolo médico recomendado

Não existe antídoto específico sistêmico para o cloro. O tratamento é de suporte intensivo.

Condutas imediatas

  1. Retirada da vítima do ambiente contaminado

  2. Oxigenioterapia para manter saturação acima de 94%

  3. Levar o paciente para uma unidade de saúde o mais rápido possível para realização de medidas de tratamento sintomático e de suporte

Pacientes devem permanecer em observação hospitalar por 6 a 24 horas, mesmo se inicialmente estáveis, devido ao risco de agravamento tardio.

Falhas sistêmicas e responsabilidade

Os dois episódios levantam questionamentos sobre:

• Treinamento adequado de funcionários
• Armazenamento correto de substâncias químicas
• Procedimentos padronizados de diluição
• Supervisão técnica especializada
• Fiscalização sanitária preventiva

No caso mais recente, a investigação aponta que o funcionário responsável pela manutenção não possuía qualificação técnica formal divulgada até o momento. Já no episódio de Campinas (SP), o produto estaria sendo preparado enquanto alunos ainda frequentavam o espaço.

Especialistas em segurança química destacam que manipulação de hipoclorito exige protocolo rígido, ventilação adequada e treinamento específico, sobretudo em ambientes fechados.

Um alerta nacional

O Brasil possui milhões de usuários frequentes de piscinas em academias, clubes e condomínios. O tratamento com cloro é seguro quando realizado corretamente. O risco surge na falha humana, na mistura indevida ou na ausência de controle técnico.

As duas mortes, separadas por sete anos, evidenciam que o perigo não é teórico. Ele é real, silencioso e potencialmente fatal.

Enquanto os laudos não são concluídos, permanece a mesma pergunta que ecoa entre familiares das vítimas: Quem deveria ter evitado que isso acontecesse?

 

  

Dra. Flávia Neri   
Farmacêutica Bioquímica com Doutorado em Ciências da Saúde (UFG). Farmacêutica Clínica no HC-UFG e Servidora da SES-DF no Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox). Especialista em toxicologia clínica, análise de dados e Diretora da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox).

 

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