
Artigo escrito por Dr. Wilson A. Paiva
Se Teofrasto tivesse Instagram e TikTok, não precisaria sair de casa para escrever seu livro. Bastava rolar o feed. Mas como viveu entre 371 e 287 a.C., discípulo de Aristóteles, ele teve que caminhar por Atenas, observar a ágora, ouvir conversas, frequentar templos e tavernas. Desse trabalho paciente nasceu Caráteres, uma pequena obra que, com ironia fina e precisão quase clínica, descreve trinta tipos humanos — ou melhor, trinta vícios em estado cotidiano.
Não foi seu único feito. Teofrasto dirigiu o Liceu após a morte do mestre, ampliou a escola, escreveu sobre botânica, lógica, ética. Mas é em Caráteres que ele parece mais atual. Ali, ele inaugura algo próximo de uma tipologia moral: perfis construídos não por teorias abstratas, mas por cenas concretas. O resultado? Uma lista de 30 tipos diferentes de gente que, dois milênios depois, não é difícil serem reconhecidos em nossos colegas — e em nós mesmos.
A pergunta inevitável é: mudamos realmente ou somos os mesmos? Mudaram as roupas, as instituições, os aplicativos. Mas o vaidoso continua vaidoso — só que agora com filtro. O bajulador saiu da ágora e foi para o LinkedIn. O supersticioso trocou o oráculo por horóscopos digitais. O tagarela ganhou microfone e canal. O arrogante descobriu a caixa de comentários e por aí vai. A tecnologia evolui; o ego, nem tanto.
Quem foi esse observador implacável?
Nascido em Éreso, na ilha de Lesbos, Teofrasto chamava-se Tírtamo. Ganhou o apelido do mestre por causa de sua eloquência — algo como “fala divina”. Com Aristóteles, mudou-se para Atenas e ajudou a consolidar o Liceu como um centro impressionante de pesquisa. Após a morte do Estagirita, assumiu a direção da escola em meio a tensões políticas e dificuldades administrativas. Não apenas manteve a instituição: ampliou-a. Diz-se que chegou a reunir cerca de dois mil alunos. Muito de sua obra se perdeu. Mas Caráteres sobreviveu e por suas linhas o autor ainda ri de nós.
Trinta tipos (e você conhece vários)
Teofrasto descreve trinta figuras morais: o dissimulado, o bajulador, o tagarela, o parolo, o complacente, o impudente, o parlapatão, o enredador, o descarado, o mesquinho, o disparatado, o inoportuno, o intrometido, o estúpido, o autoconvencido, o supersticioso, o eterno descontente, o desconfiado, o desmazelado, o inconveniente, o pedante, o forreta, o gabarola, o arrogante, o cobarde, o ditador, o remoçado, o maledicente, o padrinho do vigarista e o explorador.
Leia devagar. Você pensou em alguém, não pensou? Talvez mais de um. Talvez em si mesmo — o que já é um bom começo.
O interessante é que Teofrasto não escreve para humilhar, mas para educar. Ele usa o riso como espelho. Cada tipo é apresentado por suas ações habituais: o que ele diz, como age, como se comporta nas pequenas situações da vida comum. Nada de discursos grandiosos. O vício aparece no detalhe.
Três blocos (para lembrar o feriado de hoje) para sobreviver ao mundo real (que é um Carnaval)
Podemos organizar esses trinta em três grandes grupos — apenas para facilitar a conversa.
Vícios do relacionamento
Aqui entram os que atrapalham a convivência: o dissimulado, o bajulador, o tagarela, o parlapatão, o inoportuno, o intrometido, o gabarola, o arrogante. São os especialistas em tornar reuniões mais longas, conversas mais vazias e amizades mais frágeis. O eixo comum? Falsidade, excesso, inconveniência.
Vícios da interioridade
Impudente, descarado, disparatado, estúpido, autoconvencido, supersticioso, eterno descontente, desconfiado, desmazelado, cobarde. Aqui o problema não é apenas social, mas interno: falta de medida, ausência de autocrítica, descontrole, irracionalidade. São falhas de juízo e de equilíbrio.
Vícios do interesse
Pedante, forreta, ditador, maledicente, explorador, enredador, mesquinho. Aqui reina o cálculo: aproveitar-se do outro, manipular, tirar vantagem. O mundo vira instrumento. Não é difícil perceber que esses blocos continuam operando nas escolas, universidades, empresas, igrejas e redes sociais. A única diferença é o cenário.
O que fazer com isso?
Teofrasto começa sua obra perguntando como é possível que pessoas criadas na mesma cidade e sob as mesmas leis se tornem tão diferentes. A resposta é desconfortável: porque o caráter se forma — ou se deforma — nas escolhas repetidas. E aqui está o ponto mais atual do livro: não lemos Caráteres apenas para identificar “os outros”, mas para nos localizar. Quem nunca foi inoportuno? Quem nunca exagerou na autopromoção? Quem nunca agiu por interesse?
A ironia de Teofrasto não é cruel; é pedagógica. Ele nos convida a rir — e, logo depois, a pensar. No fim das contas, talvez a grande lição seja esta: a história muda de cenário, mas a natureza humana insiste em reaparecer. O filósofo caminhava pela ágora; nós rolamos a tela. Ele anotava em pergaminhos; nós postamos. Mas os vícios — discretos, persistentes — continuam ali, esperando observadores atentos. E talvez, se tivermos coragem, esperando também nossa autocrítica.
Se Teofrasto abrisse hoje uma conta numa rede social, provavelmente teria muitos seguidores. Não porque fosse “influencer”, mas porque continuaria fazendo o que sempre fez: mostrar, com elegância e ironia, que o maior laboratório da filosofia é o comportamento humano. Inclusive o nosso.Por isso, na próxima semana falarei do primeiro bloco, depois do segundo e por fim do terceiro. Aguardem!

Dr. Wilson A. Paiva
Doutor em Filosofia da Educação (USP)
Escritor e Professor da UFG, Membro da Atleca



